quinta-feira, 14 de junho de 2012

A invenção dos sexos


Tão diferentes assim?

Muito é dito acerca das abissais diferenças que separam homens e mulheres.  A maioria     das pessoas possivelmente dirá que ambos são distintos não somente do ponto de vista biológico – quanto a organização genética e hormonal, por exemplo – , mas também em relação ao seu comportamento, sua constituição psicológica e papel na sociedade. Entretanto, os estudos antropológicos apontam caminhos distintos.



Ainda que tenham ocorrido significativas alterações nos papeis sociais de homens e mulheres, há algumas expectativas que se mantém fixas. Mesmo que atualmente as mulheres não tenham o destino traçado em relação à maternidade, aquelas que renunciam a esse papel são vistas com estranheza. Já os homens, historicamente responsáveis pelo sustento familiar, hoje não necessariamente desempenham tal função. Contudo, aqueles que são sustentados por suas esposas, certamente passarão por algum tipo de constrangimento ou preconceito por parte da sociedade da qual pertencem.

Margaret Mead, em seu livro Sexo e temperamento, demonstrou que os padrões comportamentais esperados em uma sociedade, como a norte-americana – das mulheres, espera-se docilidade, comportamento cooperativo e não-agressivo enquanto que dos homens aguarda-se um comportamento oposto a essa descrição – podem ser totalmente opostos em outras sociedades, como as por ela estudadas – no seu estudo, foram analisadas três grupos de Nova Guiné.


Para Marcel Mauss, em sua obra As técnicas do corpo, a postura feminina – seus trejeitos delicados ao sentar, caminhar e movimentar-se – é resultado de um treinamento do corpo, imposto pela cultura. Aquilo que parece inerente à organização biológica seria, portanto, resultado de uma série de exigências sociais vigentes. Da mesma forma, o modo imponente dos homens caminharem, seu jeito um tanto quanto desleixado ao sentar-se, é um padrão comportamental resultante de um treinamento e não de um determinismo biológico.

O que estudiosos como esses procuram explicitar é que, apesar de existirem diferenças biológicas, elas nada explicam, do ponto de vista social. A diferenciação biológica não explica porque há diferenciações sociais entre homens e mulheres no que tange à hierarquia, status, divisão do trabalho, personalidade, etc. Por um longo período, tentava-se justificar a restrição da mulher aos afazeres domésticos por sua própria condição, ou seja, por causa da reprodução e da maternidade. Porém, nem todas as sociedades colocam a mulher em condição de inferioridade.

Para Judith Butler, ser homem ou mulher em nossa sociedade é uma questão de performance. Em outras palavras, o gênero não se desenvolve livremente, mas sim com a regulação externa de uma comunidade que pressupõe a coerência entre o corpo do indivíduo – feminino ou masculino – e sua identidade enquanto sujeito.

Teorias à parte, a condição das mulheres na atualidade não é animadora. Evidente que as conquistas por liberdade de escolha no que diz respeito à própria vida e o ingresso no mercado de trabalho foram importantes. Mas parece que há um retrocesso. Por mais que tenhamos atingido muitos objetivos pelos quais se lutou, ainda somos vistas como seres inferiores. Explico: a mídia construiu a imagem de uma mulher que continua sendo objeto. Dessa vez, não somos vistas como Amélias de nossos lares, mas como aspirantes a mulheres-fruta, mulheres-silicone, mulheres-pedaço de carne. Mulheres descartáveis, objetos sexuais usados e jogados fora. Existe também o discurso de que mulheres não devem ser somente um corpo, mas também um cérebro: devem, por isso, estudar, ler, ser excelentes mães, esposas, filhas, amantes. No entanto, a imagem de símbolo sexual ainda se sobressai. Não digo moralisticamente que mulheres devem adotar um comportamento puritano. Digo apenas que, ao se comportar como um pedaço de carne, não estamos demonstrando respeito às conquistas femininas obtidas até hoje. De nada adiantaram as mortes, prisões, protestos de nossas antepassadas. Continuamos sendo subjugadas, inconscientemente, por uma indústria que nos imagina apenas como um corpo e não como seres pensantes, capazes de transformar o mundo não atrás, mas ao lado dos homens. Por que ser diferente deles, não é atestado de inferioridade.

Por mais que ser homem ou mulher seja fundamentalmente uma invenção cultural, temos de rever nossos conceitos acerca de nossa identidade. Refletir criticamente sobre uma série de concepções que nos foram impingidas pode ser a chave para acabar com uma série de preconceitos e estereotipação que nos desune enquanto seres sociais. 

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Material consultado

Revista Sociologia: ciência e vida. Número 33, fevereiro de 2011. 

Imagem: Blog da mente

Um comentário:

  1. Oi Roseane,

    Cada vez mais as pessoas vão entendendo a diferenciação entre aquilo que a biologia determina e aquilo que a sociedade impõe sobre um gênero. hoje em dia até a biologia pode ser modificada em termos, quando se faz a mudança de sexo complementada com hormônios.

    Estamos vivendo uma época de transição de uma mentalidade conservadora para outra, mais aberta. Lógico que há resistências, afinal o novo sempre gera conflitos, mas acredito que a tendência é superarmos grande parte dos costumes e das tradições que mantêm a mulher numa posição secundária na nossa sociedade.

    Grande abraço!

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