terça-feira, 17 de julho de 2012

Antigamente, a escola pública era boa... Será?

Os índices pífios de desempenho dos estudantes brasileiros em testes que avaliam sua compreensão linguística e matemática, além dos sabidos baixos salários pagos aos professores - especialmente os da educação básica - revelam o descaso público com relação à formação educacional de nossa população. Alguns saudosistas revelam, entretanto, que "antigamente a educação básica tinha qualidade". Mas será essa afirmação verdadeira? Vejamos alguns fatos que nos ajudarão a revelar seu embasamento ou não. 

Olimpíada de Língua Portuguesa (Foto: Walter Martins)
Fonte: Flickr
Durante meados dos anos 1960, havia um número reduzido de educandários, que se concentravam, em sua maior parte, na zona urbana das cidades. As escolas em áreas rurais existiam, mas em número bastante reduzido, mesmo em cidades menores. Por esse motivo, a maioria dos alunos que aprendiam nas escolas eram oriundos da zona urbana e provinham de classes médias e médias-altas. Os professores, por seu turno, também tinham essa mesma origem e constituíam uma classe profissional valorizada socialmente pelas elites, por integrarem uma elite intelectual e cultural. 

A partir desse período, disseminaram-se as ideias de democratização do ensino no Brasil. Isso ocorreu devido ao processo de urbanização, que acarretou a saída de grande número de habitantes das zonas campesinas para as cidades. Vendo seus filhos excluídos do âmbito educacional, esses novos habitantes das cidades passaram a exigir a universalização do ensino formal. Para solucionar esse problema, foram construídos novos educandários. Concomitantemente a esse processo, o perfil socio-econômico dos professores também se modificou. O acesso dessa enorme massa de estudantes às escolas fez com que a profissão perdesse o prestígio entre as elites. O crescimento do número de estudantes nas escolas piorou as condições de trabalho docente, acarretando na superlotação das classes, na quantidade reduzida de materiais didáticos e nas péssimas condições dos equipamentos e dos prédios. Mais uma vez, o poder público não ofereceu as condições de trabalho necessárias e simplesmente jogou o problema no colo de uma classe profissional, para que esta se virasse como pudesse. 


Sem o prestígio anterior, os estudantes de classes mais favorecidas passaram a optar por outras carreiras profissionais, como o Direito e a Medicina. A opção pelo magistério ficou relegada aos estudantes oriundos de classes sociais menos favorecidas. Atualmente, o perfil econômico da maioria dos estudantes de licenciaturas é formado por indivíduos economicamente desfavorecidos, que veem, muitas vezes, nos cursos de licenciatura, uma alternativa mais barata, do ponto de vista financeiro e mais acessível cognitivamente - devido ao seu despreparo escolar. 

Devido à ausência de boas condições de trabalho - falta de estrutura física adequada, ausência de materiais didáticos direcionados aos estudantes oriundos de classes populares e de zonas rurais e massificação do ensino escolar - , formou-se um grande aglomerado de educadores despreparados, o que alimenta um grande círculo vicioso no campo educacional brasileiro. Após toda essa digressão, podemos dizer, contudo, que o ensino público brasileiro  antes dos anos 1960 não era bom, porque abarcava apenas uma parte da população do país.   A sua democratização, porém, também não significou o acesso de todos os estudantes brasileiros à cultura letrada, graças à ausência de condições adequadas de trabalho. 

Dessa maneira, ainda há muito o que mudar - e melhorar - no que diz respeito à educação brasileira. Medidas governamentais tem sido tomadas, mas enquanto as condições de trabalho - incluindo a melhoria na formação e remuneração desses profissionais - não ocorrer, não se pode falar, ainda, em educação de qualidade no país. Espero que este seja apenas um ainda, e não uma condição definitiva.

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Fonte de consulta

BAGNO, Marcos. Nada na língua é por acaso: por uma pedagogia da variação linguística. São Paulo: Parábola, 2007. p.30-33.

2 comentários:

  1. Olá, Roseane.

    Excelente! Nos tempos em que a população brasileira ainda era predominantemente rural, havia pequenas escolas "na roça" apenas para as primeiras letras; quem quisesse prosseguir com os estudos deveria seguir para a cidade - esta, porém, era distante e não havia transporte para as crianças e jovens. Apenas os filhos de famílias mais abastadas podiam mantê-los na cidade para que estudassem. Aos filhos dos pobres restavam dois caminhos: ajudar o pai na roça de subsistência ou tentar a vida em algum grande centro. ( no caso do Nordeste, o êxodo para o Sudeste)

    A partir da industrialização e da urbanização do Brasil as demandas por "mão de obra qualificada" aumentaram, logo houve um estímulo ao estudo por parte do governo, mas deste jeito que você relatou: sem investimentos na infra-estrutura, na formação ( inclusive continuada) de professores e sobretudo na questão salarial para tornar a carreira do magistério mais atrativa para os mais jovens, a escola acolheu milhares de estudantes sem estar preparada.

    Nos anos 1990 houve um estímulo ainda maior e um esforço para evitar a evasão escolar e desde então aconteceu algo curioso: a unidade de ensino acabou assumindo não apenas uma grande quantidade de alunos, mas também assumiu funções que deveriam ser cumpridas por outros agentes e estagnou. Enquanto o mundo é dinâmico, a escola continua a mesma, pedagogicamente falando, de 20, 30 anos atrás ou até mais.

    Algumas medidas governamentais têm sido tomadas, mas ainda são tímidas e são desrespeitadas. Vide a Lei do Piso Nacional do Magistério: 17 estados brasileiros não cumprem alegando "restrições orçamentárias". Em 2011 tivemos uma greve em Minas Gerais que durou 112 dias; agora, em 2012, aqui na Bahia a greve já passa dos 100 dias. A alegação é sempre a mesma "falta de dinheiro" para cumprir com a Lei do Piso.

    Na verdade todos sabemos bem que não falta dinheiro. Falta a Educação deixar de ser prioridade apenas nos palanques e discursos eleitoreiros e passar a ser prioridade de fato e na prática.

    Abraço.

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  2. Oi Rosane,

    Tudo bem? Vim indicada ao seu blog pela Cissa Romeu.

    O seu texto reflete uma realidade do gerenciamento de políticas públicas. A divisão em ensino fundamental para Município, ensino médio para o Estado e superior para Federação não permite um equacionamento dos recursos e responsabilidades.

    Para se ter ideia, no ensino superior a expansão de Universidades no Governo Lula não permitiu melhoria da formação, apenas um número maior de pessoas com formação superior. Universidades sem professores, laboratórios, enfim, apenas estrutura física. A greve há 60 fias nas universidade, além de questão de carreira e salário, pleiteia melhorias no processo.

    Beijos.

    Lu

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