terça-feira, 3 de julho de 2012

A terra ainda gira em torno do sol?

Assim como todos os ramos da ciência, os estudos da linguagem também evoluíram - e evoluem - continuamente. No entanto, a maioria das pessoas ainda defende - talvez por desinformação, resistência às transformações, apego à tradição ou mesmo por puro preconceito - um ensino tradicional em língua materna, calcado em conceitos arcaicos e falhos. Não é à toa que as modificações em termos de referencial teórico implementadas pelo MEC causaram tanta polêmica. Muita gente andou afirmando - sem qualquer conhecimento prévio, que o material didático então distribuído pelo governo, defendia o ensino de uma língua "errada" e o não-ensino de gramática tradicional - nada mais disparatado e absurdo. 

Imagem: blog Língua Portuguesa
Para quem tiver interesse em observar o material a que me refiro - um capítulo referente ao ensino de variação linguística do livro didático Por um mundo melhor, estou anexando-o no final desse texto. Conforme vocês verão, não há nenhuma referência ao não-ensino de gramática normativa nas escolas e, muito menos, uma defesa ao "falar errado". O que existem são preceitos de uma disciplina relativamente nova no campo dos estudos linguísticos, a Sociolinguística.

A Sociolinguística - ramo dos estudos linguísticos criado nos anos 1960, nos EUA e que tem como um dos principais nomes o sociolinguista William Labov -  propõe o estudo das línguas levando em consideração o contexto real de uso e as circunstâncias que acarretam nas variações linguísticas que ocorrem em absolutamente todas as línguas. Alguns desses fatores que ocasionam variações são o sexo, a idade do falante, o grupo social ao qual ele pertence, a classe profissional da qual faz parte, a região em que vive, seu nível de escolarização, etc. Portanto, quando você percebe que um morador do interior paulista produz um r retroflexo em sua fala - algo como, /PÓRRRTA/ - ele não está falando errado. Está falando de acordo com circunstâncias histórico-culturais estabelecidas para os moradores daquela região, o que os individualiza enquanto falantes.

O papel da escola é o de oportunizar ao aluno o acesso à língua escrita e prepará-lo para ser um usuário proficiente de seu idioma. Tal função não valida o banimento da variante linguística trazida pelo aluno, oriunda do contato que teve com sua família e comunidade. A escola deve acolher esse aluno e não semear a discriminação. Deve, pois, ensinar ao aluno que, em determinadas circunstâncias, ele deverá fazer uso da variante padrão, a norma culta, principalmente em ocasiões formais - entrevistas de emprego, apresentações de trabalho e, especialmente, na escrita. Em situações informais e familiares, quando estiver em contato com seu grupo social de origem, lhe é lícito utilizar a variante de seu grupo social - até porque, se o discente fizesse uso indiscriminado da variante padrão, poderia ser tachado de arrogante pelos outros usuários.

Há que se falar, por conseguinte, em adequação linguística, não no par dicotômico - e simplificador da riqueza expressiva da linguagem - certo x errado. Aliás, quando se utilizam os termos "norma culta" em detrimento de "norma padrão", temos aí não sinônimos, mas palavras carregadas de problemas. "Culta" pressupõe a existência de uma norma "inculta", o que não corresponde à realidade. Mesmo comunidades ágrafas tem cultura, tem uma história e parâmetros linguísticos seguidos intuitivamente por seus usuários. A chamada "norma padrão", por seu turno, é uma idealização: por mais que uma pessoa siga os preceitos da gramática normativa, ela nunca falará o tempo todo de acordo com todos as suas normas - se você, falante preocupado com o "bem falar", já disse "fui no cinema" ou "assisti o filme", já transgrediu a sagrada norma padrão da língua portuguesa...


Esse tema merece outras abordagens, mas encerro esse texto por aqui. Para quem não é conservador em grau extremo e tem a mente aberta para, ao menos, averiguar tudo o que disse e analisar se concorda comigo ou não, deixo algumas sugestões de leitura - lembrando que as questões de língua interessam a todos os profissionais, especialmente aos educadores:




A língua de Eulália, de Marcos Bagno: livro bastante acessível, que trata, em forma de  novela, de assuntos caros à Sociolinguística. Traz muitos exemplos e explicações sobre fatos aparentemente caóticos inerentes à fala.  







Nada na língua é por acaso, de Marcos Bagno: a obra - que atualmente estou lendo - traz a conceituação muito clara de termos da Sociolinguística, além de discutir o caráter sistemático de fatos aparentemente caóticos da fala. 








Por que (não) ensinar gramática na escola?, de Sírio Possenti: O educador reflete sobre a real relevância do ensino de gramática na escola, esclarecendo uma série de equívocos cometidos no ensino de gramática normativa em sala de aula. 







Educação em língua materna: A sociolinguística em sala de aula, de Stela Maris Bortoni- Ricardo: a autora reflete de que maneira podemos, enquanto educadores, não alimentar um ciclo de desigualdades e preconceito em relação às camadas menos privilegiadas da população. Para tanto, sua proposta é o ensino calcado nos preceitos da Sociolinguística. 








Espero que vocês sintam-se impelidos a lerem alguma das obras acima. Afinal de contas, por qual motivo todos os ramos da ciência humana podem evoluir e o campo dos estudos linguísticos não? Hoje, ninguém mais crê que a terra seja o centro do universo... Por que ainda vamos acreditar em absolutamente todos os conceitos da gramática normativa, nascida no século III a.C??


Por um mundo melhor - capítulo do livro didático.


Dossiê: Por uma vida melhor - pesquisadores do campo dos estudos linguísticos falam sobre a polêmica em relação ao livro didático. 


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Fontes: 


Skoob.



Um comentário:

  1. Olá!

    Marcos Bagno já é um clássico nas faculdades de Letras e Pedagogia - ainda bem, embora o professor tenha algumas opiniões das quais eu discorde. Mas o livro "Preconceito Linguístico" é realmente muito interessante e adoro quando ele desconstrói o mito da "unidade da língua portuguesa no Brasil", assunto já comentado por você em seu post. Desprezar e ridicularizar as variantes linguísticas existentes em um país tão grande e diversificado como o Brasil é um crime, ao meu ver.

    Lembro da polêmica do "livro que ensina português errado". Isso rendeu muita discussão. Na época eu lembro de ter comentado em algumas páginas ou redes sociais sobre a má-vontade de algumas pessoas em insistir que o livro "ensinava português errado", pois estava muito clara a proposta pedagógica do livro didático. Leiam Jorge Amado e José Cândido de Carvalho e tenham a coragem de falar que estes escritores "escrevem errado". Soube que recentemente um deputado queria proibir livros de ninguém menos do que Guimarães Rosa nas escolas sob o mesmo argumento da "norma culta" - e sob esse aspecto entram no "índex" do deputado vários autores e obras. Isso chegou a ser apresentado como projeto de lei, não sei em que ponto isso está.

    Verdadeira tortura o ensino da gramática com aquele conteúdo ( e metodologia) de sempre - orações subordinadas substantivas, adjunto adnominal...chega ao "ápice" quando se obriga o aluno a leitura de Machado de Assis para depois fazer as análises literárias que "pedem no vestibular" e não raramente são destacadas frases da obra para análise sintática e morfológica.

    Incentivo à leitura, há quem diga.

    Abs!

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